Marchando com Fidel


Volto à carga c/um assunto fresquinho: provavelmente no noticiário internacional vocês leram ou viram algo sobre a marcha de cubanos em frente à Secretaria de Interesses dos Estados Unidos em Cuba.

Isso já é uma tônica freqüente em Cuba, que o governo tem utilizado constantemente desde o caso Elián.

Primeiro eu gostaria de comentar sobre essas marchas. Eu já participei de uma, em 2002 quando fizeram o “socialismo” irrevogável aqui, em resposta ao endurecimento das relações dos EUA c/Cuba propostas e apoiadas por Bush filho. A ditadura cubana trata de colocá-la como uma mostra do desejo e apoio da população cubana ao ser governo, além de querer fazer pensar aos incautos que elas são uma expressão livre da população.

Mentira! Todas essas marchas são sempre organizadas pelo governo cubano. Não vamos nos esquecer que na constituição cubana se proíbe o direito de assembléia privada, portanto mesmo se o povo quisesse, marchas como essa só poderiam ser conduzidas pelo governo apenas.

Ademais, o governo utiliza diversos métodos para convocar e “estimular” a participação popular em tais marchas. Ao contrário do que alguns pensam, em geral os cidadãos não são obrigados a participar. Na verdade existe o que chamamos de “livre e espontânea pressão”. Além de chamadas nos meios midiáticos cubanos, que exortam que a participação na tal marcha mostram que você é “cubano e honrado” e “ama ao seu país, à sua pátria”, o governo utiliza os centros de trabalho, escolas, universidades e organizações de massa p/trazer pessoas às marchas. Os meios para isso são variados.

Por exemplo na universidade, os representantes da FEU (Federação de Estudantes Universitários) e a UJC (União de Jovens Comunistas) fazem listas dos presentes nas marchas e colocam nos expedientes dos alunos a participação ou não em tais marchas, inclusive de estrangeiros . Assim, no futuro, quando estes estudantes forem candidatos a cargos de direção estudantil; quiserem participar de uma ajudantia valorizada; obterem o reconhecimento de “diploma de ouro“ (quando o aluno consegue além de notas superiores a 85% em todas matérias durante todo o curso, ser um aluno que tenha participado em atividades culturais, destaque científico, etc.); ter a possibilidade de fazer uma especialidade (como é na medicina) ou mesmo poder escolher o local em que irá trabalhar quando terminar a carreira, terá em conta a presença ou não em uma marcha destas.

Nos centros de trabalho, através dos sindicatos (que são todos ligados à CTC —Central de Trabalhadores de Cuba— que por sua vez pertence ao PCC —Partido Comunista Cubano) e dos chefes, é feito um controle similar ao das universidades, sendo que isso pode colocar em risco a promoção daquele funcionário faltoso na marcha, como também a participação de prêmios por produtividade (como ganhar televisores, panelas arrozeiras, etc.) e créditos financeiros (uma espécie de empréstimo descontado no salário que pode ser obtido para reforma da casa ou compra de bens domésticos).

Para aqueles que não trabalham ou estudam, o controle de sua participação nas marchas costuma ser feito pelos CDR (Comitês de Defesa da Revolução), que pode ser usado como um dossiê sobre sua inclinação revolucionária, muito utilizado no caso daquele cidadão querer viajar p/o exterior. Militares e chefes de alta-hierarquia civis estão entre os que tem presença obrigatória nas marchas

Agora, é lógico que muitas das pessoas presentes nas marchas estão porque querem e nem estão cientes dos mecanismos citados acima, ou se os estão, desconhecem o verdadeiro motivo dos mesmos. Não nos esqueçamos que Cuba está há 47 anos sob o mesmo governo, que suprime todos aqueles que se opõem ou tem idéias diferentes dele. E este governo incute na mente dessas pessoas a sua visão desde as mais tenras idades, ainda no pré-escolar, disseminando-as por desenhos animados, doutrinando-as pelos livros “didáticos”, chegando finalmente pela tergiversação das notícias e adestramento de professores.

Estes são os mecanismos gerais de convocação p/uma marcha. Entretanto eu gostaria de comentar especificamente sobre esta última, e principalmente no discurso de Fidel no programa Mesa Redonda, no dia anterior à esta. Como sempre, quem tiver vontade (e paciência), pode ler os discursos de Fidel no site do jornal Granma (o principal de Cuba, órgão oficial do Comitê Central do PCC).


Continua...
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Fidel anunciou que a marcha seria uma resposta a 8 objetivos que o governo americano buscava, que dentre eles, desejo realçar o quinto:

“O governo dos Estados Unidos adotou todas as medidas para privar a Cuba de ingressos absolutamente legítimos, obstaculizando todo envio de remessas, apelando inclusive ao desumano procedimento de proibir ou dificultar ao máximo a residentes dessa origem nos EUA a visitar familiares cubanos.

Quanta hipocrisia! Quem são Fidel e o governo cubano para falarem de restrição de viagens aos seus residentes? E principalmente a cara de pau de chamar isso de “desumano procedimento”. Vejam o que diz o relatório anual da Human Rights Watch, publicado neste mês de Janeiro, sobre este tema:

“O governo cubano proíbe a seus cidadãos sair ou regressar ao país sem antes obterem permissão oficial, qual costuma negar. As viagens não autorizadas podem acarretar em ajuizamento penal. O governo também proíbe frequentemente aos seus cidadãos que realizem viagem autorizados de levarem seus filhos c/eles ao exterior, mantendo essencialmente aos filhos como reféns para garantir o regresso dos pais. Dado o temor generalizado pela separação familiar forçada, estas restrições sobre viagens dá ao governo cubano um poderoso instrumento para castigar aos desertores e silenciar os críticos”.

Querem mecanismo mais desumano que este? E tenham em conta que o governo dispõe disso também p/minha esposa, pois mesmo estando nós casados no Brasil e ela ser mãe de um filho brasileiro, é cidadã cubana vivendo em Cuba, e para sair terá que passar por toda uma via-crucis de burocracia para pedir autorização, que pode ser negada a qualquer momento. Aliás, esta é uma das razões de minha presença em Cuba, para ser uma apólice de segurança para a saída de meu filho deste país. Continuemos então c/o cinismo de Fidel e seus comparsas.

Falando como tema o terrorista de origem cubano Posada Carriles, que tem entre seus atos o perverso atentado a um avião da Cubana de Aviación em 1976, Fidel disse o seguinte: “Vejam a lógica, a conduta destes personagens. Em 27 de setembro de 2005 o juiz Abott se desmascara e decide que o terrorista Luis Posada Carriles não deve ser deportado p/a Venezuela ou Cuba, e se fundamenta nos preceitos do Convênio Internacional de Proteção contra a Tortura. Nunca então Bush deveria ser presidente dos EUA, pois foi ele quem deu a ordem de tortura e de assassinar a não se sabe quantos. Este senhor tem uma montanha de assassinatos e torturas sobre suas costas”. Além de fazer uma acusação gravíssima (acusar o presidente americano de assassino e torturador), esquece que ele próprio é um assassino e torturador, declarado. E para isso não precisamos voltar muito ao tempo, apenas lembrar-nos que em Abril de 2003 ele ordenou à morte sumária três jovens cubanos, todos c/idade inferior à 25 anos, por seqüestrarem s/ameaça de vida à uma barca de transporte p/fugirem de Cuba. Se isso ainda é pouco, lembremos todos que seu governo executou, sob seu mando direto, na infame fortaleza de La Cabaña, em Havana, no início da revolução. Lembremos das torturas físicas e psicológicas impostas aos presos políticos jogados nos porões escuros e imundos de suas prisões em Cuba.

Mas o velho ditador não para por aí. Vejam o que ele diz em seguida: “A mesma fiscalia que atualmente mantém uma apelação na Corte de Atlanta contra Cinco cubanos lutadores contra o terrorismo. Vejam que liberdade tão proclamada de independência do chamado poder judicial, algo s/precendentes”.

O caso dos cinco cubanos presos nos EUA é mais outra mostra da hipocrisia cubana. O código penal daqui considera uma ofensa grave a espionagem em Cuba para países estrangeiros, mesmo de documentos desclassificados, impondo as penas mais altas, passível até mesmo de pena de morte aos acusados. Entretanto era exatamente isso o que estavam fazendo estes cinco cubanos nos EUA. Porque então Cuba pode fazer c/os outros algo que ela não quer que façam c/ela?

Já sobre a independência do Judiciário, novamente me valho do excelente reporte anual do Human Rights Watch, que escreve muito melhor que eu: “As estruturas jurídicas e institucionais de Cuba estão na origem das violações dos direitos humanos. Ainda que, em teoria, os diferentes poderes do Estado tenho áreas distintas e definidas de autoridade, na prática, o Poder Executivo retém o controle de todos os níveis de poder. Os tribunais carecem de independência, socam o direito a um juizo justo ao restringir seriamente o direito a defesa”.


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...continuando.

Fidel continua a destilar suas sandices ao dizer que “elementos terroristas mafiosos cubano-americanos, como os que participaram no assassinato de Kennedy, estavam planejando o assassinato do presidente venezuelano Hugo Chávez”. Primeiro, os cubanos-americanos estavam eram felizes c/JFK pois este foi o que impôs o embargo econômico à Cuba, além de ter sido sob seu governo que houve a invasão na Bahia de Porcos e várias tentativas de assassinato ao Fidel organizado pela CIA. Ademais, Lee Harvey Oswald era um comunista fervoroso, casado c/uma russa e que tinha vivido na Rússia por vários anos, e segundo ele próprio disse, tinha retornado aos EUA movido por seu ódio ao capitalismo e seu chefe, o presidente Kennedy. E mais detalhes sobre isso podem ser vistos em um documentário alemão, lançado ontem, que acusa o governo cubano, e principalmente Fidel sobre a morte de JFK.

Mais adiante, ao mencionar sobre a ajuda cubana —recusada pelo governo americano— nos esforços de recuperação depois da passagem do furacão Katrina, o decrépito diz: “Que direitos humanos? Se não tem médicos para enviar a nenhuma parte, porque essa sociedade não pode produzi-los, não pode criar esse capital humano, esse espírito de solidariedade, essa entrega, esse humanismo, porque é uma sociedade egoísta.

Eu estudo medicina em Cuba e, apesar de gostar do ensino daqui, tenho minhas discordâncias. Sempre vi que esse “internacionalismo” promovido pelo governo cubano nada mais era que uma ferramenta política, para passar por bom mocinho e desviar a atenção das atrocidades cometidas aqui dentro. Entretanto outro véu destas atitudes foi caindo desde os acordos c/a Venezuela: as vantagens financeiras sobre isso. Atualmente Cuba tem mais de 10.000 médicos na Venezuela, que apesar de cumprirem um bom papel lá, na verdade é nada mais que parte de um acordo comercial aonde Cuba se favorece de grandes somas de dinheiro e petróleo a valores camaradas (algo em torno de US$ 25 o barril, enquanto atualmente ele está sendo cotado a mais de US$ 60). Fidel percebendo as grandes vantagens financeiras nisso, além dos usuais benefícios políticos, começou a fazer acordos c/vários outros países do mundo que normalmente se baseiam no seguinte: eles pagam um salário aos médicos cubanos (de US$ 500 p/cima) e o governo fica c/uma importante parcela deste dinheiro, dando aos seus médicos US$ 50 mensais depositados em uma conta aqui em Cuba, que só é desbloqueada quando retornam ao país. Parece pouco não? Entretanto os médicos daqui estão loucos p/ir-se nestas tarefas pois isto é muito mais do que os US$ 20 em média que ganham trabalhando duro aqui. A BBC fez uma reportagem sobre este assunto. Também é um ledo engano pensar que os EUA não tem capacidade p/formar mais médicos. Se não o faz é por corporativismo dos médicos americanos, que não querem ver seus rendimentos se reduzirem por aumento da oferta de médicos, principalmente recêm-formados.

Mas o que mais me assustou durante todo esse discurso foi o tom ameaçador e nervoso de Fidel quando ele disse “é melhor que se esqueçam dessas coisas e não pretendam vestir-se todos os direitos do mundo. Temos sido cautelosos, cuidadosos, mas tudo tem um limite”. Sabe por que me assusta? Pois Fidel s/avisar fez tudo o que fez em março e abril de 2003, quando prendeu 75 dissidentes e executou 3 jovens por tentarem fugir de Cuba. Além disso, sua popularidade atualmente está altíssima, já que neste mês distribuiu panelas de pressão elétricas (muito boas por sinal) e fogões elétricos a todos os lares cubanos. O povo está embebido de fervor em Fidel, e ele é um excelente manipulador e pode usar isso p/recrudescer ainda mais suas ações contra dissidentes, como também na supressão de direitos humanos. Suas ameaças estão vindo cada vez mais freqüentes desde a segunda metade do ano passado, e várias organizações de direitos humanos, como a Amnesty Internacional, tem notado uma crescente má vontade do governo cubano no que tange os DH.

Aqui tenho então apresentado o contexto desta marcha. Fica então a pergunta: Até quando pessoas e nações cairão no engodo que é esta farsa socialista que Fidel maneja aqui?

Saiba mais sobre Steve Jobs

http://www.writersblocklive.com

Classificação:

Mike Evangelist é um ex-funcionário da Apple Computer que está escrevendo um livro sobre sua experiência na empresa, como também sua convivência c/o CEO e fundador da mesma, Steve Jobs.

No site dele, além de poderem ver rascunhos e capítulos já feitos do livro, como também fotos que irão ilustrá-lo, podem conferir suas discussões sobre tecnologia, DRM (Digital Rights Management) —que por sinal foi até “linkado” no Slashdot, nostalgia, ademais de participarem de concursos e um fórum p/discussão de temas do livro e assuntos mencionados no site.

É uma pena que esteja em inglês, mas recomendadíssimo a todos aqueles que querem conhecer sobre uma das empresas mais influentes na informática, criadora do conceito de computador pessoal e do iPod.

É como está escrito no site dele: “aonde livros são escritos ante seus olhos”.

Ataque dos clones




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